Os universos da ópera e da banda desenhada (BD) cruzam-se na ópera “A Arte Suprema”, de Luís Soldado, que a estreia na próxima sexta-feira no Centro de Artes e Criatividade (CAC), em Torres Vedras.
A ópera é baseada na novela gráfica homónima de Rui Zink e António Jorge Gonçalves, que, em 1997, foi distinguida como Melhor Livro do Ano no AmadoraBD.
O libreto é de Rui Zink, que já colaborou noutras óperas com o compositor Luís Soldado, e a encenação é de Linda Valadas, contando ainda com a projeção das ilustrações originais de António Jorge Gonçalves.
A ópera completa a trilogia iniciada com “Não há Machado que Corte” (2022), à qual se seguiu “O Nosso Amor é… Uma Ópera para Natália de Andrade” (2024), que “abordaram as mulheres escarnecidas”, disse Luís Soldado à agência Lusa, realçando: “Agora vamos falar das mulheres mais anónimas de todas que são as mulheres a dias”.
“A Arte Suprema” conta a história de Idalina, “uma mulher invisível que limpa as casas de gente visível, como atores, escritores, dançarinos”.
“O enredo oscila entre o absurdo e o poético, um incidente quase cómico transforma-a, por um ‘milagre muito humano’, numa espécie de super-mulher que acaba por salvar o mundo”, contou o compositor.
Para Luís Soldado, “o maior desafio foi fazer uma ópera-BD, algo que nunca se fez em Portugal”.
“Eu discuti o assunto com os meus colegas musicólogos da Universidade Nova de Lisboa, e não há registo de uma ópera-BD, e este foi o primeiro desafio. Como juntamos estas duas artes, a BD ou a novela gráfica com a ópera, além de tentarmos contar a história o melhor possível, as regras acabam por ser um pouco diferentes, e é tentar fazer algo novo, porque é um novo modelo de apresentação operática”, disse.
O espetáculo não vai ser apresentado num palco convencional, mas sim em várias salas do CAC, em Torres Vedras, e, mais tarde, no dia 30, às 18:00 e às 19:00, no Claustro sul do Palácio Nacional de Mafra.
O espectador escolhe o lugar onde vai assistir, podendo posicionar ao lado dos intérpretes ou junto ao foco de luz, por exemplo, “numa maior intimidade e proximidade com a ópera”.
A ideia de apresentação da ópera em diferentes salas surgiu do facto de a protagonista, Idalina, ser mulher a dias “e, no decorrer do espetáculo vai limpando várias salas, e o público, vai acompanhando-a”.
Luís Soldado afirmou que se “procurou um certo equilibro, e uma estética nova”.
“A ópera em si acaba por ser em alguns pontos uma versão mais resumida do livro, mas noutros pontos revimos as ideias e os conceitos, as imagens do António José Gonçalves são projetadas durante grande parte da ópera, mas nem sempre, para que fique mais operático, para a ópera ter o seu espaço e a BD ter também o seu próprio espaço”, explicou.
“A Arte Suprema” é uma ópera de câmara, para dois cantores e três músicos, e é uma produção da Companhia de Ópera e Artes Contemporâneas (Arepo), fundada em 2019.
O elenco é constituído pela violinista Mafalda Oliveira, a clarinetista Hélia Varanda, o acordeonista Emanuel Soares, a meio-soprano Mariana Sousa e o barítono Ricardo Rebelo da Silva, sendo a direção musical do maestro Rui Pinheiro.
O compositor afirmou à Lusa que este “foi o projeto em que se fez mais experimentação e investigação artística, ao tentar conjugar duas artes distintas, o que foi facilitado pelo facto da equipa artística ser mais reduzida; com uma orquestra não seria possível”.













