A Gás da Terra quer investir 20,5 milhões de euros na construção em Alenquer de uma unidade de transformação de efluentes agropecuários em gás natural e biofertilizante agrícola, pioneira no país, disse à Lusa o diretor-geral da empresa.
“A unidade transforma matérias orgânicas num ambiente fechado, faz a sua decomposição e fermentação, depois esse biogás é limpo, extraído e limpo e injetado na rede, é gás natural, e ainda temos o produto sobrante, que é basicamente um biofertilizante que depois a seguir é aplicado nas terras para a nutrição das terras”, explicou à agência Lusa Bernardo dos Santos, diretor-geral da empresa Gás da Terra, promotora do investimento.
O projeto de valorização de compostos agroindustriais – que é hoje apresentado à população do concelho – vai produzir por ano, de forma ininterrupta, 65 gigawatts/hora, correspondentes a uma central solar de 50 hectares, tendo capacidade para 84 mil toneladas/ano, refere.
O investimento aguarda pelo licenciamento ambiental, devendo entrar em breve em consulta pública e obter a Declaração de Impacto Ambiental até meados de 2027, e pela licença de construção pela câmara municipal. “Gostaríamos de começar a construir o projeto daqui a um ano”, apontou.
A unidade vai criar cerca de 10 postos de trabalho diretos e outros 20 indiretos e faturar cerca de seis milhões de euros por ano.
À semelhança das mais de 30 já existentes em toda a Europa, a unidade contribui para a economia circular ao valorizar e dar um destino aos compostos orgânicos agropecuários, contribuir para a descarbonização da rede de gás, com a integração do gás natural e a redução das importações de gás fóssil, e produzir um biofertilizante que substitui os fertilizantes químicos para adubar os solos agrícolas.
“Estes projetos são normalmente sempre projetos com uma grande proximidade à produção dos resíduos”, acrescentou o responsável, com o objetivo e contribuir para descarbonização, com a redução de custos energéticos, e para a pegada ecológica.
A unidade está prevista para a localidade de Marés, na freguesia da Abrigada e Cabanas de Torres, um local escolhido de forma estratégica dada a ligação direta à Estrada Nacional 1 e à rede nacional de gás.
Nas redes sociais, a CDU de Alenquer alertou que “se a central vier a ser uma realidade, vem trazer sérias consequências ambientais e a degradação da qualidade de vida das populações limítrofes”.
Conscientes dos impactos a nível do tráfego rodoviário, do ruído e dos maus cheiros, os promotores estão empenhados em mitigá-los com a proximidade entre explorações agrícolas e a infraestrutura e o cumprimento da legislação de odores mais restritiva a nível europeu.
Por um lado, a localização evita distâncias maiores no transporte rodoviário quer para transportar os efluentes, quer os biofertilizantes. Estão previstos 35 camiões por dia apenas nos dias úteis e durante o período diurno. Além disso, a unidade vai ser implantada numa área de cinco hectares com árvores ao redor e vai receber compostos agroindustriais de 18 explorações de aves, suínos e bovinos até 30 quilómetros de distância.
Os promotores garantem que todo o processo desde o armazenamento dos efluentes até ao tratamento é feito em instalações fechadas e controladas por tecnologia para evitar a propagação de odores e de poeiras ou o vazamento de águas contaminadas para os solos.
Para receber os efluentes, a unidade vai dispor de tanques de descarga dos efluentes com mangueiras de ligação, “para que não haja descargas a céu aberto nem libertação de odores”.
O processo de transformação do metano dos efluentes em gás natural retira também os odores, tornando o sobrante para biofertilizante com menos odor do que os estrumes de animais.
Uma vez que a fertilização dos campos é feita em certos períodos do ano, a exploração vai também ter depósitos “para garantir que só entrega aos agricultores o biofertilizante quando ele é necessário na preparação das terras, para evitar um subtransporte”.
Segundo a empresa, o projeto evita a emissão de 440 mil toneladas de dióxido de carbono, equivalente a uma floresta com 500 mil árvores.
“Como os resíduos têm que vir o mais rápido possível para a unidade, nós conseguimos efetivamente que essa emissão do metano já seja feita dentro dos digestores e não para a atmosfera”, além de evitar o armazenamento do estrume nas explorações agropecuárias, explicou o diretor-geral da Gás da Terra.
Quando os efluentes chegam à unidade são sujeitos a análises para garantir que apenas têm os minerais indispensáveis à fertilização dos campos, evitando a sua contaminação com metais pesados. Os biofertilizantes não só vêm substituir os fertilizantes químicos, como também permitem aos agricultores reduzirem custos e adotar práticas mais amigas do ambiente.
Ao consumirem o gás natural, várias indústrias deixam de pagar licenças das emissões de dióxido de carbono.
A empresa quer criar uma comissão de acompanhamento e um canal de contacto para receber as preocupações das populações limítrofes.
Os promotores têm projetos semelhantes para Torres Novas, Santarém e Benavente.













